Este é um tempo de ruptura. Agora a todo momento, em todo canto onde existe parede, onde existem hierarquias, onde existe o servir, todos nós atravessaremos de um tempo para outro. Neste tempo, será colocado o término do nosso olhar cabisbaixo, da nossa voz trêmula, do nosso medo de perder o essencial da vida. Nosso andar agora é confiante, nosso peito estufado. E de longe o brilho dos nossos olhos vão contar que nada nos envergonha no tempo passado. E a partir daí, a todo momento, vamos assistir o romper de toda cordialidade que camufla a manutenção da estrutura social, e ela irá desmoronar com a mesma força de paredes caindo em demolição. Veremos o desvelar de toda hostilidade disfarçada em 131 anos de Lei Áurea. Desfeito todos os disfarces, construiremos outros espaços, com a mesma minúcia usada para limpar objetos delicados. Com os bolsos vazios e de mãos abanando ficarão aqueles que saquearam o tempo do nosso corpo, que enterraram os nossos sonhos, que disseram que não existia outro lugar para nós. Seguimos e vamos varrer, para fora, toda a poeira branca que tampava nossos olhos por todo aquele tempo antes deste. E nos já não somos quase da família, já não residiremos em lacunas que não escolhemos.

Toda Empregada Doméstica Tem Um Pouco de Dandara

em exibição na exposição 1ª Residência de Jovens Negras nas Artes 
Mini Usina, Centro de Referência da Cultura Popular e Tradicional Lagoa do Nado - BH
2019
Instalação